1º andar
Mau humor. Humor? Que humor?
Carrancas assombrando corredores. Fumaça de cigarro. Cigarros. Todos envolvidos pela névoa quente e malcheirosa. Os passivos fumam mais.
Trabalhar é bom, mesmo em véspera de feriado no meio da semana. Mas quem agüenta as carrancas? Em vez de espantar os maus fluídos, atraem-nos.
Meio de ano. Meio de semana. Meio-dia. Meio humor.
Alguns risinhos sem mais e o clima insosso impera. Fazer o quê? Trabalhar. Em quê? Se eu levar em consideração o fato de que ainda não me realizei como homem – não plantei uma árvore, não fiz um filho, não escrevi um livro – prefiro a última das opções para ser menos medíocre.
Escrever no trabalho é um desabafo. Escrever como trabalho, um desafio. Nos cabelos escorridos deslizam as idéias e caem em forma de fios com raízes. Acho que escrever já virou trabalho. Olha lá, um fio branco despontado dentre os castanhos. No mês que vem, vou comprar Grecim 2000. Vou parecer um velho ridículo querendo impressionar as “teenagers”, ainda mais ridículas do que eu.
É difícil escrever como trabalho. Ainda mais nesta mesa gasta de funcionário público. Processos sobre ela. Processos sobre mim. Acompanho com minha vista, cansada de tanto tentar ler as linhas menores dos contratos de compromissários, a vida das senhoras funcionárias públicas. Quanto vazio em diálogos cheios. Cheios de dentes, de pouco caso. “Você viu a novela ontem?”. Se alguém responder que não, pronto. Entrou para o rol de desavisados, dos que não sabem de nada da vida. Apesar do fio branco já ter se multiplicado por vinte. Vinte anos se passaram, e eu aqui. Tentando entender as linhas menores.
O que é um funcionário público desta seção, senão um advogado sem formação? Nós pegamos esses processos nojentos, vemos a ordem e a cumprimos sem ver. Frases decoradas e… “deferido”. Aprendi o que é deferido e vários outros termos jurídicos que ninguém entende.
Aqueles pobres no balcão, com sua senha “x+infinito”, à espera de um atendimento que lhes isente da dívida ativa nos terminais. Tão pobres quanto eu em sua ignorância. A diferença é que estou no lado de cá do balcão. Se algum engraçadinho me peitar, eu chamo a Guarda Municipal! Grande coisa…
Aqui nós até tentamos trabalhar, mas aquele rádio-relógio capenga tocando essas músicas clichê-escroto-da-porra não nos permite raciocinar com a autoridade que pensamos ter, mas que no fundo sabemos que não pertence nem ao diretor de área.
Advogados sem formação, nem informação e muito menos em formação.
O que foi isso? Ah, a Dona Cida se afogou de novo com o chá e os biscoitos. Todo o dia é a mesma coisa. Eles se engasgam de tanto chá-café-bolachas-saliva-fumaça. Tudo isso faz parte do desespero diário. Pegar o ônibus toda a manhã e me deparar com tanta gente assim…assim…como eu.
Ô, Seu Gervásio! Tem mais um cafezinho?

