poetas, desistam

desistam, poetas,
de conquistar leitores.
a eles, nada devemos.
ao mundo, muito já demos
sutilezas incompreendidas,
belezas despercebidas
e uma trilha de esperança.
por dentro e por fora,
estamos cercados de egos.
poetas, eu lhes digo,
não sucumbam à soberba e à cegueira
da mendicância de afeto.

miss blue se diverte

às vezes, sou divertida.
mas, na maior parte do tempo,
não esboço um sorriso.
a felicidade brinca por dentro.

mundinho besta

o mundo das aparências engana.
o mundo das máscaras cai.
o mundo da vergonha é alheio.
o mundo da tristeza não tem fim.
o mundo do pássaro na mão não voa.
o mundo roda moinho à toa.

palavra rasa

giz e palavra, mesma raiz.
seu pouco uso, rasa medida
de peso e matiz.
em demasia, língua minguada
em leviano frenesi.

Emplastro silencioso

Não há nada que cause mais surpresa do que a tristeza cotidiana. Sabe, a tristeza não é algo que se escolhe e, como já escrevi, não é um motivo para competir. “Minha tristeza é maior do que a sua” não existe. Existe respeito à tristeza do outro e ao próprio sentimento de perda. Existe o tempo dado, necessário para superação. Existe paciência e compaixão, empatia – essa palavra usada tão pejorativamente hoje em dia.

Sabe, existe o espaço da tristeza e o espaço do abraço, que ocupa melhor com silêncio, como um emplastro sobre o vazio da perda. E existe a cola do abraço que custa a sair e só faz algum barulho na chegada hora de soltar. Pode ser um “está tudo certo, vai ficar tudo bem”.

Não se escolhe a dor do dia, nem o dia da dor. Mas, quando ela vem, não há mágica, não há autoajuda, não há vodka que faça esquecer. O caminho mais curto para dissipá-la é a aceitação e o silêncio. E o abraço de quem tiver pra dar.

peregrino

que não haja paciência.

apenas aja.

pois não há compaixão

onde a tônica é a indecência.

que não haja paixão

onde o escárnio é inquilino,

apenas aja.

e que não haja dor.

seja peregrino

em corações estrangeiros

ao limbo.

que aqui não há tolerância,

então aja.

parta já. haja amor,

tenha dó.

ela em nós

houve um tempo em que eu escrevia porque sentia.
hoje sinto que não escrevo o tanto que gostaria.
carente estou de mim, poeta daqueles dias,
onde passava as horas dentro de minhas vísceras
por ser eu o que eu mais queria.
agora olho, com saudade, aquela moça
distante de mim, pois hoje sou tantas
— mulheres, donas de casa, senhoras de si
na luta algoz de ser moça no espelho,
imagem mais rente que o tempo alcança.

miss blue cansa

quando o que outrora
lhe faria queimar em ira,
agora, apenas triste,
lhe baixa a mira.

sou mariana

faço parte das tradicionais
superficialidades animais.
sabe como é,
amar a superfície ajuda
a perpetuar a espécie
quando parece perdida.
fudida, coitada, antes fosse
o que era do barro ao mato
agora lama, pó, fogo e maldade.
é tarde, baby, amar já não pode.
quem sabe, jurar a busca pela paz.
a morte aqui jaz.

felicidade sem adereços

namoro não é manter matriz e filial.
casamento não é ficar aos pés do altar.
aliança não é simplesmente ter ouro na mão.
projeto de vida não é abrir mão do momento.
amar não é passar por cima de tudo.

assim, é menor a dor que se teme
e mais simples o sonho que se vive.