Emplastro silencioso

Não há nada que cause mais surpresa do que a tristeza cotidiana. Sabe, a tristeza não é algo que se escolhe e, como já escrevi, não é um motivo para competir. “Minha tristeza é maior do que a sua” não existe. Existe respeito à tristeza do outro e ao próprio sentimento de perda. Existe o tempo dado, necessário para superação. Existe paciência e compaixão, empatia – essa palavra usada tão pejorativamente hoje em dia.

Sabe, existe o espaço da tristeza e o espaço do abraço, que ocupa melhor com silêncio, como um emplastro sobre o vazio da perda. E existe a cola do abraço que custa a sair e só faz algum barulho na chegada hora de soltar. Pode ser um “está tudo certo, vai ficar tudo bem”.

Não se escolhe a dor do dia, nem o dia da dor. Mas, quando ela vem, não há mágica, não há autoajuda, não há vodka que faça esquecer. O caminho mais curto para dissipá-la é a aceitação e o silêncio. E o abraço de quem tiver pra dar.

peregrino

que não haja paciência.

apenas aja.

pois não há compaixão

onde a tônica é a indecência.

que não haja paixão

onde o escárnio é inquilino,

apenas aja.

e que não haja dor.

seja peregrino

em corações estrangeiros

ao limbo.

que aqui não há tolerância,

então aja.

parta já. haja amor,

tenha dó.

ela em nós

houve um tempo em que eu escrevia porque sentia.
hoje sinto que não escrevo o tanto que gostaria.
carente estou de mim, poeta daqueles dias,
onde passava as horas dentro de minhas vísceras
por ser eu o que eu mais queria.
agora olho, com saudade, aquela moça
distante de mim, pois hoje sou tantas
— mulheres, donas de casa, senhoras de si
na luta algoz de ser moça no espelho,
imagem mais rente que o tempo alcança.

miss blue cansa

quando o que outrora
lhe faria queimar em ira,
agora, apenas triste,
lhe baixa a mira.

sou mariana

faço parte das tradicionais
superficialidades animais.
sabe como é,
amar a superfície ajuda
a perpetuar a espécie
quando parece perdida.
fudida, coitada, antes fosse
o que era do barro ao mato
agora lama, pó, fogo e maldade.
é tarde, baby, amar já não pode.
quem sabe, jurar a busca pela paz.
a morte aqui jaz.

felicidade sem adereços

namoro não é manter matriz e filial.
casamento não é ficar aos pés do altar.
aliança não é simplesmente ter ouro na mão.
projeto de vida não é abrir mão do momento.
amar não é passar por cima de tudo.

assim, é menor a dor que se teme
e mais simples o sonho que se vive.

eco surdo

a verdade silencia
entrelinhas
– as pausas do que sei.
oh, consciência pungente
da falsa jura intermitente.
de si, eco surdo impreciso.
de mim, o lamento lancinante.

Robin Hood em Copacabana

Robin hood, o Príncipe dos ladrões

Originalmente, Robin de Locksley era filho do Barão Locksley e viajava com Rei Ricardo nas cruzadas. Foi preso e, ao fugir, retornou à Inglaterra, percebendo as mudanças: Príncipe John tomou o trono do herdeiro Rei Ricardo em virtude de sua ausência, aumentou os impostosmatou o pai de Robin, destruindo seu castelo. Sem ter onde morar, Robin passa a morar na floresta, onde conhece um grupo de homens e, ao lado deles, trava batalhas contra o Príncipe John: rouba-o e devolve ao povo o dinheiro da arrecadação de impostos. Assim, nasceu Robin Hood, o príncipe dos ladrões.

GLOSSÁRIO DE SENTENÇAS

1) Robin era filho do Barão: burguês
2) Príncipe John tomou o trono: governo golpista
3) Príncipe John aumentou os impostos: governo ganancioso
4) Príncipe John matou o pai de Robin: governo formado por criminosos
5) Robin mora na floresta: por saque e destruição causado pelo governo, o burguês passa a viver na periferia
6) Robin trava batalhas contra o Príncipe John ao lado dos homens da floresta: o burguês luta junto com o povo da periferia contra o governo ganancioso
7) Robin devolve ao povo o dinheiro da arrecadação de impostos: o burguês, agora conhecido como ladrão, devolve o dinheiro do povo para uma construção social mais justa

RESUMO

Robin fazia sua parte para a expansão do reino/povoado.
Robin foi roubado pelo governo, mesmo sendo filho do Barão.
Robin também perdeu tudo, mesmo sendo filho do Barão.
Robin não roubava o povo.
Robin não roubava quem pagava imposto.
Robin não roubava o dinheiro dos impostos para si.
Robin não matava nem para melhorar de vida, nem para ter o que lhe era de direito.
Robin estava ao lado do povo que trabalhava e que, com dificuldades, pagava os impostos ao governo.
Robin liderava um grupo de homens para retomar o dinheiro dos impostos e devolvê-lo ao povo.

APROFUNDANDO

Robin não roubava o celular, a bolsa, a carteira, a casa, o carro de quem, com dificuldades, pagava os impostos ao governo.
O governo, representado por Príncipe John, era golpista, ganancioso, criminoso e roubava tanto a burguesia quanto os mais pobres.

Conclusão

Todos podemos ser Robin Hood, desde que nossa mira esteja certa.

só de ida

há paz em minhas escolhas
de ir, vir e partir.
minha estrada é
um contínuo caminhar para frente,
sem voltas para amargar.
assim como a estrada de quem vai embora
é para todo o sempre.
é para nunca mais.

Rechonchudos versus Franzinos

Em uma cidade oriental, havia dois clãs historicamente adversários, os Rechonchudos e os Franzinos. Por serem fisicamente mais fortes, os Rechonchudos batiam nos Franzinos sempre que os encontravam. Mas, entre os Rechonchudos, havia um ou outro que não concordava com a prática e que, simplesmente, seguia seu rumo ao trombar com um Franzino. Os Rechonchudos usavam trajes iguais e eram bem parecidos, assim como os Franzinos. Por não saber o que esperar, o Franzino procurava ficar do outro lado da cidade a fim de não ter surpresas – o que nem sempre era possível, já que os melhores produtos estavam lá nas bandas dos Rechonchudos.

Certo dia, um Franzino teve que atravessar a cidade para comprar o melhor saquê da região, que estava, obviamente, na comunidade dos Rechonchudos. Nas poucas vezes em que saiu das “abas” de seu clã, este Franzino nunca teve a sorte de encontrar um Rechonchudo mais amistoso, voltando para casa sempre muito machucado. Já cansado de apanhar, resolveu carregar consigo uma faca para se proteger. Há poucas quadras do mercado, ele se deparou com um Rechonchudo. Não pensou duas vezes e zaz!

O Rechonchudo olhou firmemente em seus olhos. Ensanguentado, mas ainda em pé – afinal era um Rechonchudo -, disse “meu amigo, não sei em que filme você está vivendo, mas eu não faço parte dele.” E foi embora, depois do primeiro soco dado num Franzino em toda sua vida.

Moral da história: não tem moral da história. Quero que me ajudem a identificar culpados e inocentes. Obrigada.