só de ida

há paz em minhas escolhas
de ir, vir e partir.
minha estrada é
um contínuo caminhar para frente,
sem voltas para amargar.
assim como a estrada de quem vai embora
é para todo o sempre.
é para nunca mais.

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Rechonchudos versus Franzinos

Em uma cidade oriental, havia dois clãs historicamente adversários, os Rechonchudos e os Franzinos. Por serem fisicamente mais fortes, os Rechonchudos batiam nos Franzinos sempre que os encontravam. Mas, entre os Rechonchudos, havia um ou outro que não concordava com a prática e que, simplesmente, seguia seu rumo ao trombar com um Franzino. Os Rechonchudos usavam trajes iguais e eram bem parecidos, assim como os Franzinos. Por não saber o que esperar, o Franzino procurava ficar do outro lado da cidade a fim de não ter surpresas – o que nem sempre era possível, já que os melhores produtos estavam lá nas bandas dos Rechonchudos.

Certo dia, um Franzino teve que atravessar a cidade para comprar o melhor saquê da região, que estava, obviamente, na comunidade dos Rechonchudos. Nas poucas vezes em que saiu das “abas” de seu clã, este Franzino nunca teve a sorte de encontrar um Rechonchudo mais amistoso, voltando para casa sempre muito machucado. Já cansado de apanhar, resolveu carregar consigo uma faca para se proteger. Há poucas quadras do mercado, ele se deparou com um Rechonchudo. Não pensou duas vezes e zaz!

O Rechonchudo olhou firmemente em seus olhos. Ensanguentado, mas ainda em pé – afinal era um Rechonchudo -, disse “meu amigo, não sei em que filme você está vivendo, mas eu não faço parte dele.” E foi embora, depois do primeiro soco dado num Franzino em toda sua vida.

Moral da história: não tem moral da história. Quero que me ajudem a identificar culpados e inocentes. Obrigada.

náufragos

a noite cai
para entristecer poetas
de almas alagadas
salgadas
à deriva no mar tinto
naufragadas em garrafas
sem velas, acesas
queimando pavios
no cio

brevidade

fiquei velha com o tempo.
desse que passa enquanto a gente dorme
de olhos abertos voltados para o teto.
velha para declarações apaixonadas.
velha para o amor cego e louco
daqueles que festejam cada traço de defeito.
fiquei velha com a vida.
velha demais para a fantasia
da camponesa que me falaram um dia.
daquelas que embriagam a alma
e turvam as vistas para a verdade.
fiquei velha de esperar
por uma loucura doce poesia
daquelas que alimentam jovens
espíritos como o meu.
fiquei velha muito cedo.
fiquei velha para o romance.
velha para as flores viçosas.
um dia, em breve, de suas mãos quentes
receberei flores vermelhas.
aquelas que salgam a lápide fria.

separados

estamos separados
pelo tempo, pelo espaço
pelo dia que ao seu lado
eu não passo

estamos separados
pelo vidro derretido
por pesadelos e gemidos
pelo amor comprometido

estamos separados
por caminhos mal traçados
com o peito bifurcado
e os amores aos pedaços

pelos riscos, pelos medos
pelas portas, pelos correios
separados e sedentos
por paixão e desapego

razão

pra saber
pra viver só
pra não querer mais
pra desatar o nó
pra fechar a rua
pra frequentar
pra sorrir
quando é pra chorar
pra abraçar sua perna
pra implorar e
ter insônia antes
de ter razão
pra colidir
na contramão
pra se trancar
no relento
pra chover
pra desistir de tudo
que faz sofrer
pra começar de novo
e não parar
pra fazer de conta
que é pra viver

grávida

penso sempre em estar grávida.
de sentimentos, emoções,
ideias e sonhos.
grávida de amor intenso
por mim, pelos outros,
pelo desconhecido.
parir tudo isso num jorro
incontido e indiscreto
como um riso frouxo,
escandaloso e rouco.
sem planejar nada, apenas gerar
com cuidado e jamais só,
acompanhada de cada uma de mim.
e soltar no mundo, brotar no visgo
as luzes que carrego no ventre
para dar à luz enfim.

resistência

minha inveja é
dos que resistem
ao tempo glacial,
à frieza das horas,
ao amor suplicante,
à saudade errante,
ao reflexo da dor
desprezada,
à ansiedade da dor
alheia.
invejo a inveja rasa
e seu castelo de areia.

sentimento

um pouco de sentimento não faz mal a ninguém.
um poço de sentimento não afoga ninguém.
um louco de sentimento vive sempre por alguém.
um ser sem sentimento perde muito por poréns.

você nunca será diferente e único, buscando um padrão para seguir.