depois do tempo

Deus me fez forte.
não tenho culpa se dou porrada
pra sobreviver.
sou responsável pelas porradas
que levo pra tentar viver.
uma vez esquecida,
a poesia reverbera em outros adereços.
palavras desaparecem nos documentos
rígidos, verborrágicos e sem alma.
mas eu, ah eu permaneço
respiro e não choro.
tô vivendo, viu, apesar dos coices
que a vida dá.
porque viver é bacana,
senão ninguém gostava de apanhar.
mulher de malandro? não,
nem da vida de ninguém.
sou cem porcento minha alma,
divido a existência com quem
quero e do amor é refém.

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miss blue recusa

se sua boca só dá conta

da cerveja que transborda, 

não venha beber

do meu amor. 

Deixe ser

Pare de falar que falta amor no mundo. Não falta. O que falta é demonstração. E demonstração não é prova, é tornar explícito o amor que sente. Deixe que o mundo se mostre, sem se queixar, sem achar que só você pode mostrar que é feliz. Deixe o mundo ser.

amorance

amor não é romance.
amor sem romance também não.

peregrino

que não haja paciência.

apenas aja.

pois não há compaixão

onde a tônica é a indecência.

que não haja paixão

onde o escárnio é inquilino,

apenas aja.

e que não haja dor.

seja peregrino

em corações estrangeiros

ao limbo.

que aqui não há tolerância,

então aja.

parta já. haja amor,

tenha dó.

felicidade sem adereços

namoro não é manter matriz e filial.
casamento não é ficar aos pés do altar.
aliança não é simplesmente ter ouro na mão.
projeto de vida não é abrir mão do momento.
amar não é passar por cima de tudo.

assim, é menor a dor que se teme
e mais simples o sonho que se vive.

brevidade

fiquei velha com o tempo.
desse que passa enquanto a gente dorme
de olhos abertos voltados para o teto.
velha para declarações apaixonadas.
velha para o amor cego e louco
daqueles que festejam cada traço de defeito.
fiquei velha com a vida.
velha demais para a fantasia
da camponesa que me falaram um dia.
daquelas que embriagam a alma
e turvam as vistas para a verdade.
fiquei velha de esperar
por uma loucura doce poesia
daquelas que alimentam jovens
espíritos como o meu.
fiquei velha muito cedo.
fiquei velha para o romance.
velha para as flores viçosas.
um dia, em breve, de suas mãos quentes
receberei flores vermelhas.
aquelas que salgam a lápide fria.

razão

pra saber
pra viver só
pra não querer mais
pra desatar o nó
pra fechar a rua
pra frequentar
pra sorrir
quando é pra chorar
pra abraçar sua perna
pra implorar e
ter insônia antes
de ter razão
pra colidir
na contramão
pra se trancar
no relento
pra chover
pra desistir de tudo
que faz sofrer
pra começar de novo
e não parar
pra fazer de conta
que é pra viver

grávida

penso sempre em estar grávida.
de sentimentos, emoções,
ideias e sonhos.
grávida de amor intenso
por mim, pelos outros,
pelo desconhecido.
parir tudo isso num jorro
incontido e indiscreto
como um riso frouxo,
escandaloso e rouco.
sem planejar nada, apenas gerar
com cuidado e jamais só,
acompanhada de cada uma de mim.
e soltar no mundo, brotar no visgo
as luzes que carrego no ventre
para dar à luz enfim.

perder a intimidade é tornar o silêncio uma lâmina cega que, gradativa e incessantemente, dilacera o amor, o afeto e, por fim, a própria cumplicidade.