Emplastro silencioso

Não há nada que cause mais surpresa do que a tristeza cotidiana. Sabe, a tristeza não é algo que se escolhe e, como já escrevi, não é um motivo para competir. “Minha tristeza é maior do que a sua” não existe. Existe respeito à tristeza do outro e ao próprio sentimento de perda. Existe o tempo dado, necessário para superação. Existe paciência e compaixão, empatia – essa palavra usada tão pejorativamente hoje em dia.

Sabe, existe o espaço da tristeza e o espaço do abraço, que ocupa melhor com silêncio, como um emplastro sobre o vazio da perda. E existe a cola do abraço que custa a sair e só faz algum barulho na chegada hora de soltar. Pode ser um “está tudo certo, vai ficar tudo bem”.

Não se escolhe a dor do dia, nem o dia da dor. Mas, quando ela vem, não há mágica, não há autoajuda, não há vodka que faça esquecer. O caminho mais curto para dissipá-la é a aceitação e o silêncio. E o abraço de quem tiver pra dar.

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miss blue cansa

quando o que outrora
lhe faria queimar em ira,
agora, apenas triste,
lhe baixa a mira.

eco surdo

a verdade silencia
entrelinhas
– as pausas do que sei.
oh, consciência pungente
da falsa jura intermitente.
de si, eco surdo impreciso.
de mim, o lamento lancinante.

buscar apenas a alegria no outro é como assistir ao espetáculo de costas: de olhos voltados para a plateia que ri, enquanto o palhaço chora na coxia.

Por favor, derrubem os muros

O amor é simples quando se constrói pontes, não muros. Os muros impedem de enxergar o caminho e exigem muita energia para se chegar ao outro lado.

Para ser o lugar onde o outro se sente à vontade, é preciso mais do que abrir as portas. É preciso mantê-las abertas para a livre passagem e entendimento das almofadas no sofá e trincas na parede.

Só assim, com amor, os reparos serão feitos sem perguntas, mas num silêncio aveludado e acolhedor.

oração

tantas vezes do zero,
tantas vezes ao nada,
e permaneço em pé.
meio aos trancos e prantos.
imperfeita que sou
e orgulhosa por poder
aprender todos os dias.
que meu silêncio volte
absoluto para acordar
os surdos.

Tristeza não se disputa, nem se justifica.

quem espera sempre cansa.

miss blue sabe

a gente sabe
quando não cabe
no tempo, no espaço
na lembrança, no abraço

stabilis

na corda bamba da ilusão
equilibrada na esperança
serena aguardo o chão
pesar nessa balança